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SOBRE SER DE FEVEREIRO...

02/02/2018

2 de Fevereiro...

 

32 anos e pela primeira vez não estou em terra praiana... socorro?! Pois bem... obviamente que o desejo de estar em frente ao mar é gritante, mas a gente respira fundo e sente que o mar está dentro de nós.

 

Filha do verão, das festas, das águas, do mar, do pé de manga e caroço de umbu... a pisciana de 27 de Fevereiro que chora por tudo (sim, eu disse tudo; mas que não foge da treta, hein?!). 

 

 

 

Aquela que desde bebê ia com a mãe sentar na mureta do Rio Vermelho e observar a entrega dos presentes pra Yemanjá, sempre acompanhadas de um saco de Umbu. Ao final da tarde, com o desaparecer do sol e, junto com ele, os barcos no horizonte, voltávamos para casa. Felizes, leves e mareadas.

 

Anos mais tarde, o ritual de acompanhar a festa se manteve, mas com algumas mudanças. Já com a turma de amigos, lá estava eu entres cortejos e shows musicais. Mas a contemplação: sempre.

 

O tempo passou. Eu mudei. Salvador mudou. A festa mudou...

 

Longe de mim qualquer sentimento saudosista, mas não abro mão do senso crítico e observador para com a festa, que de alguns anos pra cá ficou mais branca que as roupas dos passantes.

 

O popular que saiu do centro e foi para as bordas, ao lado das caixas de isopor. E no centro da caminhada? O branco. E não digo do branco das roupas... eis a branquitude popularesca!

 

Pois é, em tempos de debates assíduos sobre questões raciais, branquitude e privilégios, é um tanto doloroso acompanhar o embranquecimento de uma festa que pra mim sempre foi majoritariamente preta. Preta que nem Yemanjá.

 

Hoje, adulta e mais madura, apenas observo com os olhos marejados (óh lá a chorany) a falta de constrangimento com que pessoas brancas desejam protagonizar a festa. Desde a insistente reprodução de imagens ou até mesmo produção de imagens representando Yemanjá branca. Lamentável. Afinal, sabemos que há uma enorme diferença entre participar e querer protagonizar. 

 

E lá vão elas com suas fotos à beira mar, entre rosas e frases de canções populares. Máquinas fotográficas que pesam nos barcos mais que os presentes. Isso sem falar nas infinitas festas tops e alternativas, todas muito bem confortáveis. Confortavelmente brancas. Afinal, "a festa é popular, mas não precisamos nos misturar com o povo, né?" Sigamos...

 

Antes das férias em Salvador acabarem, passei na casa dos pescadores no Rio Vermelho, fiquei a contemplar por alguns minutos aquele ambiente, para ao menos tentar trazer na mala um pouco daquela energia. E trouxe.

 

Hoje, morando em São Paulo e longe do mar, tento não entristecer pela distância. Sinto que por mais distante que esteja daquela imensidão do mar, sinto que ele está aqui comigo.


Sou água que corre pro mar...

 

 

Se tenho medo da festa se embranquecer, isto é, se acabar? Sim.

Mas no fundo sei que não acabará...

Existe algo maior
O mar é muito maior.

E ele sempre estará lá, assim como Ela.

A nos observar

A nos guardar.

 

Yemanjá, obrigada.

Eu, filha de Fevereiro, do mar e das águas... 

 

ODOYÁ

 

 

 

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