Brancx antirracista? Então, cole na corda!

O título já entrega a origem de quem vos escreve: baiana, de Salvador. A expressão “cole na corda” nasce no contexto do Carnaval, quando o folião pipoca fica próximo à corda para acompanhar o bloco. Com o tempo, a expressão ampliou de significado e hoje representa "se juntar", "apoiar".

 

Dada a breve contextualização, a reflexão parte desta última semana, em meio aos protestos em Minneapolis, nos EUA. No dia 25 de maio, George Floyd, homem negro de 46 anos, foi assassinado pelo policial branco Derek Chauvin. Poderíamos ignorar a descrição étnica de ambos, não fosse a história de segregação racial norte-americana.

 

O fato desencadeou uma onda de protestos. E, em pouco tempo, a internet foi bombardeada por imagens dos confrontos, sobretudo com grande adesão de pessoas brancas em defesa de uma pauta, a priori, negra: #blacklivesmatter. Em alguns casos, fizeram-se de escudo para proteger os negros em confronto com a polícia.

 

As imagens chegaram ao Brasil. A identificação foi imediata, visto que muitos ainda se recuperavam do luto por mortes como a do garoto João Pedro, morto durante operação policial no dia 18, em São Gonçalo, RJ. Afinal o país é um dos que mais matam negros: segundo o Atlas da Violência 2019, das vítimas de homicídio, 75,5% são negras.

 

Apesar dos números, por aqui ainda ecoa o mito de democracia racial, sob o argumento da miscigenação entre brancos, negros e índios. E é sob esse mito que a branquitude brasileira tranquiliza-se e até afirma que não existe racismo no Brasil.

 

Mas retornemos aos protestos que aqui ecoaram e que já levaram algumas centenas de pessoas às ruas, inicialmente por torcidas de futebol em São Paulo e Rio de Janeiro, e que prometem se estender a outras capitais: pessoas brancas nas ruas em prol da causa racial #vidasnegrasimportam. Ao que parece, a ideia é, como nos EUA, utilizarem-se do privilégio branco como escudo para a preta massa nos protestos.

 

Mas será que branquinho e branquinha vai mesmo se arriscar a levar porrada, bomba, gás e bala de borracha da polícia? Quando falamos em ter consciência racial no Brasil sendo brancx, é sobretudo compreender seus privilégios e o quanto eles lhe beneficiam em uma sociedade desigual. E, cá pra nós, reconhecer privilégios (e responsabilidades) não são os gritos como os da Barbie pistola que só revelam a cultura da meritocracia brasileira.

 

Daí a querer saber qual o limite dessa branquitude em realmente se juntar aos protestos da comunidade negra. Afinal, o racismo no Brasil é estrutural e vive de uma retroalimentação com outros sistemas da sociedade, em diversos níveis, como um prédio e seus andares. E, por isso, ser antirracista é fazer parte de um embate sistêmico. Como diz Angela Davis, "liberdade é uma luta constante". Então não acredite que postagem com hashtags nas redes sociais seja o suficiente. Precisamos de muito mais!

 

E lembrando: haverá novos protestos no próximo final de semana em São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades: espero que você, brancx, vá! Se não puder ir, colabore divulgando. Agora é hora de colar na corda, pois não dá mais para ficar de camarote!

 

 

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Texto originalmente publicado na Newsletter SITIADA Ed. 1 04.junho.2020

 

A Sitiada é feita por Daniel Pernambucano de Mello (@danielmello), Gabriela Kimura (@kimuragabriela), Gislene Ramos (@gisfalapreta), João Lacerda (@lacerdices), Kizzy Collares Antunes (@kiki_officiel) e Marcela Duarte (@petitemarcela). Entre em contato por nossas redes sociais ou pelo e-mail projetositiada@gmail.com.

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