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  • Gislene Ramos

Banho negro


Foto: Dudu Assunção

No banho Queria a pele limpar Apagar aquela cor suja Esfregava com força para branca ficar.

Doía. Doía muito. E doída seguia. A cada dia. A cada banho. A dor sob o chuveiro não era maior Que a que sentia por dentro. Cada olhar. Cada piada. Cada insulto. Sujavam sua alma com o mais imundo racismo. Voltava para casa querendo ir embora. Daquele lugar. Daquele mundo. Daquela cor. Ela não tinha culpa. Por que eu? Por que eu? Por que eu? Todo dia. Todo banho. A mesma dor. Toda doída. Pequena Sob a água Chorava sem lágrimas. Hoje. Grande. Ainda chora. Ainda seca. Mas também grita. Resiste. Luta. E durante o banho não mais se esfrega. Sob o cantar das águas do chuveiro Ela dança consigo mesma. Se acaricia. Se encobre. Se sente. Acarinhando a própria pele Que um dia foi maltratada. Julgada mal lavada. Mal amada.

Se banha.

Se ama.

#poesia #banho #pelenegra #negro #água #amorpróprio #afetividade

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